
O Ministério Público de São Paulo afirmou, em denúncia oferecida à Justiça nesta quinta-feira (23), que o deputado estadual Lucas Bove (PL) tinha o costume de fumar maconha e apontar uma arma para a ex-mulher, a influenciadora Cíntia Chagas.
A Promotoria pediu a prisão preventiva do parlamentar por “reiterados descumprimentos de medidas protetivas” da influencer. A Justiça ainda não se manifestou. O foro especial de deputados estaduais não abarca esse tipo de caso.
Ao Folha de São Paulo, a defesa de Bove, composta pelo advogado Daniel Bialski, afirma que ele recebeu a denúncia e o pedido de prisão com surpresa. “Inexistem razões, pressupostos e ou requisitos para a cogitação ou adoção dessa medida”, diz a defesa, que já se manifestou formalmente contra o pedido da Promotoria, e reafirma que Bove “confia na Justiça e vai continuar empenhado a comprovar que não praticou crime algum”.
Detalhes da denúncia
O Ministério Público (MP) classificou o episódio em que Bove teria apontado uma arma para Cíntia como intimidação ostensiva.
A denúncia cita outras ameaças e intimidações desde 2022, como a obrigação de Cíntia Chagas mostrar constantemente o lugar e com quem estava. Em um dos casos, o deputado obrigou a influencer a apagar uma foto da campanha publicitária em que ela aparecia se exercitando com roupas de ginástica e disse que ela estava com a “perna arregaçada” e que ela tinha de “ser decente daqui por diante”.
A Promotoria também citou que uma testemunha presenciou, em 2024, o deputado fumar maconha e apertar o bico do peito da influenciadora por cima da roupa. Por vezes, ele colocava a mão debaixo da roupa de Cíntia e dizia “olha o que eu faço com a sua amiga”. O episódio teria deixado ambas constrangidas.
Em uma das brigas do casal, no ano passado, o deputado teria afirmado a uma amiga da influenciadora: “Cadê aquela vagabunda? Eu vou matar ela”. No mesmo dia, teria dito a Cíntia que “você só não vai apanhar agora porque tem 6 milhões de seguidores”. Na sequência, aproximou-se do rosto com o punho fechado e ameaçou queimar seus pertences.
Reação da Promotoria e da vítima
No pedido de prisão, a promotora Fernanda Raspantini Pellegrino afirma que “o autor possui a devida ciência acerca da necessidade de respeitar as medidas protetivas, porém, ele não o faz por acreditar que não vai ser responsabilizado pelas consequências de seus atos”.
O MP avançou em relação ao inquérito policial, que havia negado a prática de lesão corporal, envolvendo uma faca, por suposta falta de provas. Na conclusão da investigação, a delegada responsável pelo caso havia descrito que não foi possível constatar se as manchas roxas apresentadas pela influencer em fotografias eram ou não decorrentes de atos consentidos por ela.
Divergindo da autoridade policial, a Promotoria considerou o relato de Cíntia. A advogada da influenciadora, Gabriela Manssur, disse que a denúncia “representa um marco importante para as mulheres na busca pela verdade, pela responsabilização e pela dignidade da vítima”.
Pelas redes sociais, Cíntia comentou a decisão: “Para quem duvidou: lesão corporal. Hoje, durmo aliviada. Sigo acreditando na Justiça.” Ela pediu que as mulheres vítimas de violência não se calem e que o silêncio “protege o agressor”.
“Trata-se de um homem público, e é moralmente inaceitável que agressores de mulheres permaneçam investidos em funções de poder. A violência contra a mulher não se circunscreve à esfera privada: constitui crime e afronta à dignidade humana.”
Em contrapartida, o deputado criticou a denúncia nas redes e escreveu que “a militância feminista que alcançou o poder público deixa claro que, se você for mulher, não precisa cumprir as regras impostas pela Justiça, sua palavra vale mais que suas ações, do que seu histórico”.


