
Vinte e sete anos depois da explosão de uma fábrica clandestina de fogos de artifício em Santo Antônio de Jesus, que vitimou 64 pessoas e marcou profundamente a história do município, a luta por justiça, reparação e transformação social segue em curso.
Durante uma entrevista coletiva conduzida pelo jornalista Humberto Carlos, a juíza do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia, Dra. Rose Fernandes, fez uma avaliação dos avanços alcançados até aqui e dos desafios que ainda permanecem no caminho das vítimas e de suas famílias.
Engajada historicamente na causa por meio do Instituto 11 de Dezembro, antigo Movimento e ONG 11 de Dezembro, a magistrada destacou que, apesar do longo tempo decorrido desde a tragédia, o momento atual representa um marco importante: o início do cumprimento da sentença internacional que condenou o Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Segundo a juíza, alguns pontos da decisão possuem efeitos mais imediatos, enquanto outros, de caráter estrutural e transformador, exigem um esforço contínuo do poder público e da sociedade. Entre eles, a construção de um plano de desenvolvimento socioeconômico que envolva políticas públicas voltadas à educação, geração de emprego, combate ao trabalho infantil, ao racismo e à discriminação estrutural.
“É um processo que requer monitoramento constante para que não haja retrocessos e para que, de fato, haja mudanças reais”, pontuou Rose Fernandes, alertando que ainda persistem práticas como o trabalho clandestino na produção de fogos e condições degradantes de trabalho.
A magistrada ressaltou que o impacto mais profundo da decisão internacional está justamente na promoção da igualdade de oportunidades, no acesso à educação e na criação de alternativas dignas de renda, capazes de romper o ciclo de exclusão que levou o país à condenação.
Outro ponto sensível abordado na coletiva foi o impacto psicológico da tragédia. Para a juíza, as marcas deixadas vão além das perdas individuais. Há uma ferida coletiva e um trauma social que ainda precisam ser enfrentados de forma mais efetiva.
“Há cicatrizes individuais, traumas das famílias e um trauma social. Foi uma tragédia de grande repercussão, uma mácula que precisa ser tratada tanto individual quanto coletivamente”, destacou, reconhecendo que ainda são poucas as ações concretas voltadas exclusivamente para o acompanhamento psicológico contínuo das vítimas.
Apesar das dificuldades, Rose Fernandes reconhece que alguns avanços já foram alcançados e que cada conquista representa um passo importante na longa caminhada por justiça, memória e transformação social.
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Por: Sandro Almeida
Foto: Humberto Carlos


