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Opinião: Michelle Bolsonaro volta a ser alternativa a Flávio e vídeo é movimento de xadrez do PL

Foto: Reprodução/ Redes sociais

A posição de “bombeiro” exercida publicamente por Valdemar Costa Neto é um jogo de aparências. Uma eventual surpresa com o vídeo de Michelle Bolsonaro criticando o enteado, Flávio, é um jogo de cena para os eleitores. Se alguém pode argumentar que as declarações da ex-primeira-dama não eram esperadas, deve estar no círculo muito próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Porque, provavelmente, apenas eles não saberiam que o potencial da madrasta de implodir uma já claudicante candidatura à presidência da República.

 

Michelle até usa a vestimenta de submissa ao marido, tal qual parte da comunidade da extrema-direita exige das mulheres. No entanto, desde que passou a articular politicamente a própria candidatura – e até mesmo a prisão domiciliar de Jair -, a ex-primeira-dama mostrou não ser cega política. E, ainda que passível de críticas, a demarcação de espaços feita por ela desde então mostra que Michelle não ficaria inerte aos ataques dos enteados, que fazem a própria unção como herdeiros políticos do pai.

 

O balde entornou com o vídeo, mas ele já vinha sendo alimentado desde antes da chegada do clã ao Palácio do Planalto. Não foram raras as vezes em que Flávio, Carlos e Eduardo atacaram a madrasta, seja com o conhecido “fogo amigo”, seja com postagens e declarações na imprensa aliada contra a terceira esposa do pai. Michelle engoliu a seco, suportou tudo com serenidade e, no momento certo, resolveu revidar. Exatamente quando o enteado pré-candidato a presidente tentava se recuperar do escandaloso pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar a propaganda política travestida de filme biográfico de Jair.

 

Michelle voltou a ser uma alternativa possível, caso Flávio não vingue enquanto candidato ao Planalto. Ela arrombou a porta da cena política ao execrar publicamente o enteado que, nas palavras dela, humilhou-a. Não é uma questão de mensurar o estrago feito na candidatura de Flávio. É tornar-se uma opção viável, caso o ungido pelo ex-presidente chegue próximo do pleito sem ter chances de bater a candidatura à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo com a ciência – para não dizer anuência – do marido e grande símbolo do bolsonarismo (alçado à condição de mártir enquanto preso “político” na perspectiva do segmento).

 

As próximas semanas serão cruciais para entender como vai funcionar a estratégia do PL e de Valdemar Costa Neto. Ou forçam uma aproximação bem ensaiada entre Flávio e Michelle ou vão para a aposta na candidatura a presidente da ex-primeira-dama, que causa um dano momentâneo, mas tem bem menos ônus do que um senador onipresente em escândalos – vide o modus operandi das rachadinhas à época da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ou a mentira de que Vorcaro era um desconhecido até o vazamento do áudio ao “irmão”.

 

De qualquer forma, Michelle teve mais dividendos positivos do que Flávio ou outros eventuais atingidos pelo vídeo (lembremo-nos de que ela fala em ação coordenada contra ela após o episódio do apoio político do PL no Ceará). A ex-primeira-dama não é, nem de longe, uma amadora política, como tanto quiseram pregar o restante do clã. Jair parece ter entendido isso. Os filhos ainda não.